Reportagem de capa - nov/dez 2001
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Matura��o de sementes
Profa. Denise C. F. Dias
Universidade Federal de Vi�osa / MG
dcdias@mail.ufv.br

O desenvolvimento e a matura��o das sementes s�o aspectos importantes a serem considerados na tecnologia de produ��o de sementes, pois entre os fatores que determinam a qualidade das sementes est�o as condi��es de ambiente predominantes na fase de florescimento/frutifica��o e a colheita na �poca adequada. Portanto, o conhecimento de como se processa a matura��o das sementes e dos principais fatores envolvidos � de fundamental import�ncia para a orienta��o dos produtores de sementes, auxiliando no controle de qualidade, principalmente no que se refere ao planejamento e a defini��o da �poca ideal de colheita, visando qualidade e produtividade.

O processo de matura��o tem in�cio logo ap�s a poliniza��o, que � o transporte do gr�o de p�len at� o estigma (parte feminina) da flor. Ocorre ent�o a fertiliza��o, que nada mais � que a uni�o do gameta masculino, liberado pelo p�len, com o gameta feminino que est� localizado no �vulo. O �vulo, uma vez fecundado, se desenvolver� e originar� a semente, que na maioria das esp�cies est� contida no interior do fruto, o qual resulta do desenvolvimento do ov�rio da flor. A partir desta uni�o de gametas, ocorre uma s�rie de transforma��es morfol�gicas e fisiol�gicas que v�o dar origem ao embri�o, ao tecido de reserva e ao envolt�rio (casca) da semente. Assim, o processo de matura��o inicia-se com a fertiliza��o do �vulo e se estende at� o ponto em que a semente atinge a maturidade fisiol�gica, isto �, quando cessa a transfer�ncia de nutrientes da planta para a semente.

O acompanhamento do desenvolvimento das sementes � feito com base nas modifica��es que ocorrem em algumas caracter�sticas f�sicas e fisiol�gicas, como tamanho, teor de �gua, conte�do de mat�ria seca acumulada, germina��o e vigor.

Ap�s a fertiliza��o, o tamanho da semente aumenta rapidamente, atingindo o m�ximo em curto per�odo de tempo em rela��o � dura��o total do per�odo de matura��o. Este r�pido crescimento � devido � multiplica��o e ao desenvolvimento das c�lulas do embri�o e do tecido de reserva. Ap�s atingir o m�ximo, o tamanho vai diminuindo devido � perda de �gua pelas sementes e esta redu��o � vari�vel com a esp�cie; em soja, por exemplo, � acentuada, enquanto que em milho � bem pequena.

Paralelamente, os produtos formados nas folhas, pela fotoss�ntese, s�o encaminhados para a semente em forma��o, onde s�o transformados e aproveitados para a forma��o de novas c�lulas, tecidos e como futuro material de reserva. Na realidade, o que denominamos "mat�ria seca" da semente s�o as prote�nas, a��cares, lip�dios e outras subst�ncias que s�o acumuladas nas sementes durante o seu desenvolvimento. Logo ap�s a fertiliza��o, o ac�mulo de mat�ria seca se processa de maneira lenta, pois as divis�es celulares predominam, ou seja, est� ocorrendo um aumento expressivo no n�mero de c�lulas. Em seguida, verifica-se um aumento cont�nuo e r�pido na mat�ria seca acompanhado por um aumento na germina��o e no vigor, at� atingir o m�ximo. Desse modo, pode-se afirmar que, em geral, a semente deve atingir a sua m�xima qualidade fisiol�gica quando o conte�do de mat�ria seca for m�ximo.

� importante observar que durante esta fase de intenso ac�mulo de mat�ria seca, o teor de �gua da semente permanece alto, visto ser a �gua o ve�culo respons�vel pela transloca��o do material fotossintetizado da planta para a semente. Al�m disso, para que o material que chega � semente seja metabolizado, � necess�rio que o meio, onde est�o ocorrendo as rea��es, seja bastante aquoso. Portanto, durante esta fase � primordial que haja adequada disponibilidade de �gua e de nutrientes no solo para que o "enchimento" das sementes seja satisfat�rio.

Muitos estudos feitos com matura��o de sementes de diversas esp�cies apontam o ponto de m�ximo conte�do de mat�ria seca como o melhor e mais seguro indicativo de que as sementes atingiram a maturidade fisiol�gica. Assim, a maturidade fisiol�gica fica caracterizada como aquele ponto ap�s o qual a semente não recebe mais nutrientes da planta m�e, cessando a conex�o planta-semente. A partir da�, a semente permanece ligada � planta apenas fisicamente. � preciso ressaltar os cuidados com a semente neste ponto, visto que o conte�do de reservas � m�ximo e o grau de umidade ainda � muito alto (variando de 30 a 50%, dependendo da esp�cie). Sementes de soja apresentam cerca de 50 a 55% de umidade nesta fase, enquanto as de milho de 35 a 40%. Assim, as reservas acumuladas podem ser consumidas pela respira��o intensa da semente com grau de umidade t�o elevado.


Em piment�o, a matura��o das sementes coincide
com a mudan�a de colora��o do fruto


Para minimizar este problema, a planta aciona mecanismos para promover r�pida redu��o no teor de �gua das sementes. Como exemplo, pode-se citar a abertura dos capulhos de algod�o, expondo as sementes ao ar e permitindo uma r�pida queda no seu teor de �gua. � nesta fase que plantas de soja, feij�o e milho come�am a amarelecer, iniciando o processo de secagem no campo. Esta secagem natural � uma estrat�gia importante para a sobreviv�ncia, j� que � medida em que perde �gua, as rea��es metab�licas da semente v�o diminuindo, de modo a evitar a sua germina��o ainda no fruto, a preservar as reservas acumuladas e, conseq�entemente, a sua qualidade.

Assim, a partir da maturidade fisiol�gica, o teor de �gua decresce rapidamente at� um ponto em que come�a a oscilar de acordo com a umidade relativa do ar, o que indica que a partir da� a planta m�e não exerce mais influ�ncia sobre a umidade das sementes. No entanto, � importante que as condi��es de ambiente permitam esta r�pida desidrata��o das sementes. A ocorr�ncia de chuvas prolongadas e alta umidade relativa do ar nesta ocasi�o retardar�o o processo de secagem natural, comprometendo a qualidade das sementes, que estar�o sujeitas � deteriora��o no campo. Sementes de soja, que apresentam 50-55% de umidade na maturidade fisiol�gica, em condi��es ambientais favor�veis, ter�o seu teor de �gua reduzido para 15-18% em uma semana.

Estas varia��es no teor de �gua no final da matura��o s�o t�picas de sementes de frutos que quando maduros apresentam-se desidratados, como ocorre com soja, feij�o, milho, trigo, arroz e outros cereais. Sementes contidas em frutos carnosos geralmente não passam pela fase de r�pida desidrata��o, nem sofrem grandes oscila��es no seu teor de �gua em fun��o da umidade relativa do ar. Neste caso, elas se mant�m com alto grau de umidade "protegidas" dentro do fruto.

� importante ressaltar que, em condi��es de campo, a evolu��o de cada uma destas caracter�sticas não � f�cil de ser monitorada e a fixa��o de uma data ou �poca para a ocorr�ncia da maturidade fisiol�gica em fun��o de eventos como semeadura, florescimento e frutifica��o pode apresentar diferen�as para uma mesma esp�cie e cultivar em fun��o das condi��es de clima, estado nutricional das plantas, dentre outros fatores. Portanto, torna-se interessante conhecer outros par�metros que permitam detectar a maturidade fisiol�gica, correlacionando-a com caracter�sticas morfol�gicas da planta, dos frutos e/ou sementes.

Por exemplo, para milho, uma caracter�stica que pode estar correlacionada � maturidade fisiol�gica � o desaparecimento de "linha de leite". Outra caracter�stica de f�cil identifica��o em campo � a forma��o de uma camada de cor negra na regi�o de inser��o da semente no sabugo. Esta camada escura nada mais � do que uma cicatriz desenvolvida a partir da paralisa��o do fluxo de nutrientes da planta para a semente. Em outras gram�neas, como o trigo, aveia e arroz, a maturidade pode estar relacionada com mudan�as da colora��o verde para amarelada nas glumas e no pedicelo (ped�nculo que une a semente ao fruto).




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